
"Visibilidade que nos escraviza"
Dizem que a História é uma linha reta, mas quem observa o comportamento humano suspeita que Ela seja, na verdade, um redemoinho. O cativeiro de tempos atrás, aquele que asfixiava o corpo e silenciava a voz por meio de correntes de ferro e muros de pedra, parece ter encontrado uma maneira sofisticada de se camuflar no presente. Mudamos as ferragens, mas o sentimento de clausura permanece o mesmo.
Antigamente, o isolamento era imposto pelo espaço. As celas eram frias, os cadeados rangiam e a distância era a medida da solidão. Hoje, o cativeiro é digital e voluntário. Trancamo-nos em telas luminosas, onde as grades são algoritmos que nos mostram apenas o que queremos ver, limitando o horizonte do pensamento. A liberdade de ir e vir nunca foi tão celebrada nos discursos, enquanto, na prática, raramente saímos do raio de alcance de nossas próprias bolhas sociais.
A repetição é irônica. Porém, o carrasco é uma figura externa e autoritária, onde o vigia somos nós mesmos. Policiamos nossas palavras para não perder a aprovação da massa, acorrentamos nossas horas a produtividades vazias e nos tornamos prisioneiros de uma urgência que não leva a lugar algum. A angústia de quem olhava para o Céu através de uma fresta no passado é a mesma de quem olha para o infinito de informações hoje e não encontra sentido em nada.
O cativeiro moderno não deixa cicatrizes na pele, mas marca a Alma com o cansaço. A sensação de estar sendo observado, que antes era o medo do panóptico,
( parte arquitetônico de uma instituição carcerária ideal, concebido pelo filósofo e jurista utilitarista inglês Jeremy Bentham em 1785.)
transformou-se no desejo exibicionista de ser visto — e ai de quem não for notado. Tornamo-nos servos de uma visibilidade que nos escraviza.
Talvez o erro seja acreditar que as correntes foram quebradas, quando apenas foram banhadas a ouro e conectadas ao Wi-Fi. O cativeiro se repete porque o ser humano ainda teme a vastidão da verdadeira liberdade. É mais seguro estar preso a um dogma, a uma rede ou a um hábito do que enfrentar o vazio do livre-arbítrio. O tempo passa, os muros caem, mas a Alma, nostálgica de suas próprias celas, apressa-se em construir novas cercas para se sentir, estranhamente, em casa.
O que pensam amemizar continua sob vigilância Dia e Noite ,não é vero?
Enviado por Maria Augusta da Silva Caliari em 26/03/2026