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Longo ,mas reflexivo" "Peso das correntes invisíveis"
Elias, vivia no Reino do Vidro Infinito. Lá, as paredes não eram de pedra, mas de luz azulada. Cada cidadão carregava um pequeno retângulo de cristal negro no bolso, que vibrava como um coração mecânico. Se o cristal parasse, o cidadão deixava de existir para os outros. Elias era um mestre na arte de ser visto; suas manhãs eram gastas esculpindo a imagem perfeita de sua própria felicidade para que o Reino a aplaudisse. Mas o cansaço é um bicho silencioso. Uma noite, enquanto tentava capturar o ângulo exato de um café que já estava frio, Elias sentiu o peso. Não o peso do cristal, mas o das correntes invisíveis que ligavam seus polegares àquela luz. Ele percebeu que não sabia mais o gosto do café, apenas o brilho que ele produzia na tela. Decidiu caminhar. Cruzou a fronteira da cidade, onde o sinal de rádio começava a gaguejar até morrer. No silêncio da floresta, o cristal em seu bolso deu um último suspiro eletrônico e apagou. O pânico foi a primeira corrente a quebrar. Elias sentiu o vazio de não ser observado. Quem era ele se ninguém estivesse olhando? Ele gritou para as árvores, mas os carvalhos não deram "curtidas". Ele chorou perto do rio, mas a água não comentou sobre sua vulnerabilidade. Foi então que ele viu uma velha sentada sob uma sumaúma. Ela não tinha cristal. Ela tinha apenas as mãos sujas de terra e os olhos fixos em uma formiga que carregava uma folha. — Como você suporta ser ninguém? — perguntou Elias, a voz trêmula. A velha sorriu, e suas rugas pareciam mapas de caminhos reais. — Eu não sou ninguém, meu filho. Eu sou o que sobrou quando parei de tentar ser o que eles esperavam. A corrente só prende quem acredita que o reflexo no espelho é mais real do que a carne que o sustenta. Elias olhou para o próprio reflexo na água do rio. Pela primeira vez em anos, ele não tentou ajustar o cabelo ou forçar um sorriso. Ele viu o cansaço sob os olhos, a verdade da sua pele, a beleza da sua imperfeição. Ele pegou o retângulo de vidro negro e, sem raiva, apenas com a calma de quem acorda de um pesadelo longo, enterrou-o fundo na lama úmida. O solo aceitou o lixo tecnológico, e o peso nos ombros de Elias sumiu. Ele voltou para a cidade, mas não para o Reino do Vidro. Ele andava agora pelo meio da rua, olhando nos olhos das pessoas, em vez de olhar para os bolsos delas. As pessoas o estranhavam; ele parecia "desconectado". Mas Elias, sentindo o vento no rosto e o gosto real do pão na boca, sabia que, pela primeira vez, ele era o único que estava verdadeiramente ligado à vida. Maria Augusta da Silva Caliari
Enviado por Maria Augusta da Silva Caliari em 26/03/2026
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