
"Um viva ao mmeu travessiro"
Dizem que o sonho é uma propriedade estritamente privada. Um território cercado, com chave na porta, onde ninguém mais pode entrar. À noite, cada um deita a cabeça no seu próprio travesseiro e assiste ao seu próprio filme, sem direito a acompanhante. Mas a verdade é que, às vezes, a gente sonha um sonho tão grande que ele simplesmente não cabe no quarto. Transborda.Outro dia, um amigo me confessou um sonho bobo. Ele queria apenas caminhar até o trabalho sem precisar desviar os olhos do celular por medo de um assalto. Queria o direito de andar distraído. Ele achava que era um desejo mesquinho, uma bobagem individual. Mal sabia ele que, na mesma rua, o vizinho do terceiro andar acordava pensando exatamente a mesma coisa.É aí que o jogo muda. Quando o seu desejo mais íntimo é também o do cobrador do ônibus, o da professora da escola pública e o do motorista de aplicativo, o sonho deixa de ser um delírio solitário. Ele vira patrimônio público.Nenhum sonho humano realmente relevante nasce para ser de uma pessoa só. O desejo de ver os filhos formados, a vontade de respirar um ar mais limpo, a fome de dignidade, o plano de ter um final de semana sem prazos ou angústias. São roteiros que se repetem em milhões de mentes todas as noites.A gente passa a vida achando que está isolado em nossas próprias utopias. Mas a história humana só caminha para a frente porque, de vez em quando, os travesseiros entram em sintonia. Quando o sonho de um se torna o sonho de todos, ele perde o status de ilusão. Vira o rascunho da realidade,não é vero?
Enviado por Maria Augusta da Silva Caliari em 30/05/2026