
O Trono de Vidro"
Adalberto passou trinta anos servindo o café e organizando os arquivos da repartição. Ele conhecia cada segredo das gavetas, mas ninguém conhecia Adalberto. Ele era invisível.Isso mudou na manhã de terça-feira, quando o diretor-chefe foi demitido por corrupção.
Por um erro burocrático ou pura falta de opção, Adalberto foi nomeado o substituto temporário. Pela primeira vez na vida, ele sentou-se na cadeira de couro alto, atrás da imensa mesa de mogno.
Na primeira hora, o silêncio da sala era assustador. Na segunda hora, ele descobriu a caneta de tinta vermelha.Quando o primeiro funcionário entrou na sala — o mesmo que o ignorava nos corredores —, Adalberto sentiu um calafrio na espinha.
O homem gaguejou ao pedir a assinatura de uma verba. O substituto não assinou. Pediu que o funcionário refizesse o relatório inteiro até o final do dia.
O homem empalideceu, curvou a cabeça e saiu.Aquele momento foi como um veneno doce. Em uma semana, já não caminhava; ele desfilava. Demitiu a secretária por um atraso de cinco minutos.
Proibiu conversas paralelas no café. O homem que antes aceitava todas as migalhas agora exigia o banquete do respeito absoluto.
Ele não queria apenas gerenciar; ele queria controlar o medo alheio.No vigésimo dia, o presidente da empresa entrou na sala sem bater. Trazia uma folha de papel. A reestruturação havia terminado e um novo diretor definitivo havia sido contratado.
O tempo do substituto no topo havia acabado. Ele deveria voltar para os arquivos e para a garrafa de café.Então, olhou para a caneta vermelha em sua mão. Ela parecia subitamente leve, sem peso algum.
Ao sair da sala de cabeça baixa, ele percebeu a pior verdade sobre o Poder: O Poder nunca foi Dele. O Poder pertencia apenas à cadeira, e a cadeira já estava Pronta para o próximo dono.Bem assim!
Enviado por Maria Augusta da Silva Caliari em 23/06/2026