
"Mistério não batia à porta"
A névoa de Bom Jardim sempre foi densa, mas naquela noite de agosto, ela parecia ter peso. O velho relógio de parede do casarão dos Alencar, parado desde 1926, soltou um estalo seco. Tic-tac. Carlos largou a xícara de café. O som ecoava pelas paredes de madeira maciça, rítmico, pesado, como passos em um corredor vazio. Ele se aproximou do objeto de bronze escurecido. O ponteiro dos segundos, antes travado pelo tempo, agora avançava ao contrário.A cada batida retrocedida, as luzes da casa enfraqueciam. Um cheiro de terra molhada e flores antigas invadiu a sala. Carlos tentou segurar o pêndulo, mas suas mãos atravessaram o metal como se ele próprio fosse feito de fumaça. Pela janela, os postes da rua apagaram-se um a um. O mistério não batia à porta, ele desfazia o presente!
Enviado por Maria Augusta da Silva Caliari em 17/08/2026