
"Esconde-se um amor que não cabe na rotina"
Esconder a verdade é um trabalho de engenharia pesada. Não nasce do nada! Exige fundações invisíveis, vigas de silêncio e uma fachada muito bem pintada. Passamos a vida aprendendo a arquitetar esses pequenos sumidouros onde jogamos o que não pode ser dito.
Na mesa do café, a xícara treme levemente, mas a mão que a segura finge firmeza. "Tudo bem?", pergunta o outro, mais por hábito do que por investigação. "Tudo ótimo", responde a boca, mentindo com uma naturalidade que assusta até os espelhos. A verdade, aquela criatura incômoda e pontiaguda, fica trancada no porão do peito, arranhando as paredes da garganta.
O problema de camuflar a realidade é o custo de manutenção. Uma verdade guardada não morre; ela cria mofo, ganha peso, exige vigília constante. Você precisa lembrar exatamente qual versão distribuiu para cada pessoa, como um contrabandista de ilusões.
Esconde-se um amor que não cabe na rotina, uma falência financeira que destrói o status, ou simplesmente a profunda exaustão de fingir que temos o controle de tudo.
No fim das contas, a verdade é como a água em dia de tempestade forte. Ela infiltra. Deixa manchas nas conversas desatentas, vaza pelos olhos em um piscar de olhos mais demorado, ou transborda em um desabafo torto no meio da noite.
Esconder o real é adiar o inevitável, esquecendo que o maior prisioneiro de um segredo nunca é o fato ocultado, mas sim quem aceitou o papel de ser o seu carcereiro.
Enviado por Maria Augusta da Silva Caliari em 17/08/2026