
"O Desconforto"
O desconforto é uma roupa que não serve, uma costura grossa que aperta a pele e nos lembra, a cada movimento, que não pertencemos mais ao lugar onde estamos. Ele não avisa quando chega!
Instala-se como uma visita incômoda na sala de estar da mente, mudando os móveis de lugar e apagando as luzes que traziam segurança.É o silêncio pesado que se estende após uma verdade dita pela metade.
É o nó que aperta a garganta quando o corpo quer gritar, mas a etiqueta do mundo exige um sorriso amarelo e um aceno de cabeça.
Sentir-se desconfortável é habitar a própria pele como se ela fosse um território estrangeiro, onde os costumes são estranhos e a língua local é o isolamento.
Há quem fuja dele, buscando o anestésico do hábito e o calor do que já é conhecido.
Mas, o desconforto, em sua aspereza, carrega uma honestidade brutal. Ele é o sintoma claro de que a redoma que criamos ficou pequena demais para o tamanho da nossa existência.
É o atrito necessário que quebra a casca do ovo, o puxão desconfortável que força a semente a rasgar a terra escura em busca de luz.
Não é fácil aceitar o incômodo. Ele pinica, machuca os pés na caminhada e faz o peito pesar como chumbo. Porém, no avesso de toda a agonia, o desconforto é o primeiro sussurro da mudança.
É a alma avisando que o repouso acabou e que, logo adiante, existe uma nova forma de respirar, não é vero?
Enviado por Maria Augusta da Silva Caliari em 31/08/2026